Faz hoje um ano que morreu o meu pai e continuo a sentir um enorme vazio. Estive ao seu lado sempre que pude e até ao fim. Ainda não ultrapassei a falta dele, mas também eu vou “conversando” como posso. O texto que se segue é da sua autoria e foi escrito a 17 de Janeiro de 2006, apenas doze dias depois de se ter descoberto o cancro. Como não é segredo, decidi publicar o mesmo, em sua memória e em jeito de homenagem. Ainda por cima, está muito bem escrito:
“Sempre acabaste por chegar, afinal. Há quem te espere a cada momento, como se espera o sarampo na infância, a menstruação e a ejaculação na puberdade, a gripe antes e depois disso, o enfarte na idade mais ou menos adequada. Há quem te espere palpando o bócio, perscrutando a próstata, arregalando a menina do olho, acariciando os baixos da mama, centimetrando o sinal no ombro, na clavícula ou quiçá na nádega. Não te procurei, todo este tempo, e por isso mesmo não te esperava, pelo menos até há uns seis ou sete meses atrás. Achas que sim, que devia esperar por ti? Que atacas quando muito bem te dá na real gana, ou, dizendo com mais exactidão e contemporaneidade, no republicano gasganete? Que vens quando queres e não quando és esperado? Tens talvez razão. A tua razão. Mas nem ela me faria passar o tempo a olhar e a sentir a cor, a pele, o nódulo, o papo, para detectar a tua chegada. Sempre me caguei em ti. E continuo a fazê-lo. Fiz mal, dizes? Terás razão – outra vez. E dizes isso com satisfação? Tens motivos para isso – mas só agora. Só agora que chegaste e ferraste a tua marca no meu corpo. No meu pulmão. Mais exactamente: no meu brônquio direito. Antes de te implantares não existias. Eras um zero absoluto. Vivias no teu próprio imaginário. E no daqueles que te imaginassem. Nanja eu. Chegaste a mim, afinal. E daí? Segue-se que me venceste? Que vais crescer desse tamanhinho ridículo que agora ostentas – nem sete centímetros: pouco mais do que um terço da minha pila, que essa, ao menos, já foi mais útil e gozou mais que tu em todo este tempo, pouco ou muito, em que vives por aí – até teres o tamanho suficiente para dares cabo de mim? Vives por aí, perguntava eu? Mais certo seria dizer que morres. Porque a tua vida é matar – a mim ou a qualquer outro que ataques – e quando nos matas morres connosco. Enquanto nós, os humanos que feres, vivemos sobretudo para dar vida enquanto vida nós próprios temos. Grande diferença entre nós, ó cancro, não achas?
O nosso combate só agora começou. Podes ganhá-lo, mas é coisa que não sabemos para já. Vou lutar contigo, é claro. É sina dos homens defenderem a sua vida daqueles e daquilo que tentam matá-los. Vou lutar com as armas que tiver, que me derem ou venderem ou alugarem ou emprestarem: água, química, comida, livros e escritas, música de Mozart e de Lennon, versos de Rilke e de Pessoa, sapatos para andar ao longo dos rios e mãos para puxar o caule de um gerânio, a espinha de um pinheiro, a corola de uma rosa. Contra isto vais ter apenas o teu ódio. Ou nem isso: apenas essa fatalidade de viveres para trazeres contigo a morte, nessa tua cabeça castanha e manchada (eu vi-ta, meu estupor, naquela nítida foto colorida e exacta do TAC) que parece a careca do Savimbi vista de cima, no dia em que ficou estirado de vez na mata de Angola.
Não estou disposto a cagar-me de medo sempre que pense em ti. Ou sempre que te veja a figurinha maléfica mas não tão temível quanto tu possas pensar que ela é.
Estou a ler o último livro do Lobo Antunes e aparece lá um verso que ele escreveu na guerra, e que é assim: “”senti, então, um grande medo de morrer”. É o que se sente, claro, quando se está na guerra, em Angola, na Guiné-Bissau, no Vietname, na Flandres, em Aljubarrota ou no Iraque. Aí, o inimigo está quase sempre escondido e a arma atinge-nos vinda de nenhures: do meio impenetrável do mato, do céu encoberto pelas nuvens, da trincheira que se confunde com o chão. Aqui, meu caro cancro, é diferente. Vejo-te bem, e sempre que quiser. Acho mesmo que vou pedir que me façam uma foto tua, em tamanho natural, para trazer na carteira, juntamente com os sinais de vida que lá habitam, para a contemplar de vez em quando e – até – para a ornar ociosamente com uns cornos, uns galhos de cervo.
Vai ser um longo e duro combate, meu caro. Espero que estejas preparado para ele. Eu estou. Não espero, de ti, uma luta justa e leal. Mas também te garanto que, da minha parte, vou usar de todos os truques, de todas as manhas de que tiver notícia e que este ou aquele ou aquela se disponham a por à minha disposição. Pelo teu lado estás tu e a tua natureza. Pelo meu lado estarei eu, a vida, o amor e a amizade. E a alegria.”



Rui pedro: É também de mensagens que se vai crescendo e por vezes cresce-se até além. Este texto do Lima Jorge transporta o vírus até ao seu exato lugar, ao mais pequeno da sua importância. Sua benção aos que como RLJ também sempre encontrarão a vida,o amor,a amizade e essa alegria.
Lima Jorge, por mim estás bem aqui. Esse abraço!
Tanta lucidez e tanta vida no texto do teu pai, deixam-me sem palavras.
Olha, obrigada por o teres apresentado.
Lápis, meu bom e belo amigo: e a força que demonstra este texto arrepia-me. Desde que o recebi apenas passei os olhos por ele três vezes, com medo das diversas emoções que me poderia provocar.
Maria: foi (para mim é) um gajo deslumbrante. Amei este Homem. Hoje ainda não tinha tido tempo de chorar. Foi agora.
Está aqui uma grande lição de vida. Obrigada pela partilha.
Deixaste-me sem palavras e a chorar. Ha duas semanas um primo da minha mae morreu de cancro. No espaço de meses passou de um avô e pai saudavel pra o “outro lado”. Fiquei horrorizada. Não tive coragem de o ir ver….
A dor que sentes é uma merda. Pk sinto-a todos os dias…..
Mas depois penso que tenho de sentir as outras coisas boas da vida, e apesar de agora nao saberem assim grande coisa, com o tempo tenho esperança que tudo melhore!!! E essa esperança nao me mataram, apesar de tudo.. por isso bora la continuar a nossa vidinha!!!
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E dar continuidade a uma historia que os nossos pais criaram… prevalecer o que de bom eles nos deram !!
Uma beijinho muito grande e um abraço bem apertado!!
Musa
bli:
senti-me “obrigado” a esta partilha. sobretudo para lembrar a memória dele e o quanto o respeito e sinto falta. ainda bem que percebes-te isso.
Musa:
lamento que tenhas passado pelo mesmo. é a pior das sensações. não desejo ao pior dos meus inimigos.
quanto ao resto da nossa vida, só temos é de tentar levantar a cabeça e fazer de conta que não se passou nada, embora todos os dias pequenos episódios e memórias nos invadam, não é?